LadoB


As aventuras sexuais das garotas perdidas… e as nossas?
novembro 28, 2008, 1:37 am
Arquivado em: Sem-categoria | Tags: , , ,

A obra estava exposta num pequeno móvel de madeira da livraria. Tinha toda a aparência de um livro infantil do século XIX, com sua capa dura, detalhes floridos na borda e o desenho à guache de três meninas brincando em frente a um espelho. Uma mulher, movida talvez pela beleza da gravura, se aproxima e folheia o livro. Imediatamente seu rosto fica vermelho, seus olhos arregalam. Ela coloca a obra no lugar e se afasta apressada.

Com certeza, não foi a única a reagir desse modo à Lost Girls, lançada no Brasil no final de 2007. As surpresas, no simples folhear da obra por um leitor desavisado, são principalmente três: não se trata de um livro, mas de uma história em quadrinhos (“Um gibi com esse cuidado todo?”, se indagaria um adulto conservador); não é uma simples história em quadrinhos, mas uma história pornográfica (“Que pouca vergonha! O mundo está perdido”, diria ele novamente); seus três volumes custam R$ 65,00 cada (“Tudo isso pra um gibi?!”, diria indignado).

Lost Girls, que se adequa às três características citadas acima, transcende, contudo, todas elas. Escrita pelo mago (sim, “mago” – ou “bruxo”, como ele prefere) britânico Alan Moore, e desenhada por sua esposa, Melinda Gebbie, a HQ (história em quadrinhos, pra quem não sabe…) consiste numa verdadeira reflexão sobre a hipocrisia dos nossos valores morais relativos ao sexo. Até aqui, nada de novo. Milhares de obras já fizeram o mesmo, por diferentes caminhos. O inusitado do trabalho de Moore e Gebbie está justamente nesse “caminho” que eles escolheram. Para libertar nossos sentidos e desejos sexuais das normas morais que nos são invisíveis, os dois começaram a subverter nossas certezas desde a raiz: as personagens centrais da trama pornográfica são justamente ícones que nossa tradição literária fixou como protótipos da ingenuidade e simplicidade: Alice, de Alice no País das Maravilhas; Dorothy, de O Mágico de Oz; e Wendy, de Peter Pan.

As três garotas se encontram já adultas num hotel austríaco, num período histórico próximo ao início da Primeira Guerra Mundial. E é neste ambiente idílico e isolado que elas se tornarão amigas e amantes umas das outras, e partilharão suas histórias de descobertas de um mundo fantástico, superior à mediocridade de uma sociedade regida por leis ascéticas. O acesso a este mundo superior, de fantasia e felicidade, e que conhecemos tão bem pelas histórias clássicas, se dá, nas três garotas, invariavelmente pela descoberta do prazer sexual.

É assim que Moore inicia uma espécie de releitura das histórias originais. Descobrimos que o coelho que conduziu Alice ao País das Maravilhas era, na verdade, um senhor idoso, amigo do seu pai, e que a iniciou no sexo quando criança; que, diante do tornado que a levaria a Oz na história original, Dorothy na verdade descobriu os prazeres da masturbação; e que Peter Pan era apenas um garoto que vivia num bosque perto da casa de Wendy, por quem ela se apaixonou e com quem transou pela primeira vez.

Mas é bom evitar interpretações apressadas – como a de que Moore apenas estaria interessado em recontar as três histórias de um ponto de vista pornográfico. Longe disso. Como o mesmo já declarou em entrevistas, as garotas são na verdade uma metáfora para a descoberta da sexualidade. Todas elas, nos livros originais, são retiradas ainda jovens de suas vidinhas confortáveis e familiares e colocadas em mundos estranhos e fantásticos em que nenhuma das leis normais da realidade é a mesma.

E é justamente por essas “leis normais”, as quais nos acostumamos e consideramos naturais, serem puramente arbitrárias, que todos os personagens de Lost Girls descobrirão o prazer justamente naquilo que a moral condena. Do sexo entre mulheres (principalmente entre as três protagonistas), que permeia toda a obra, passamos a relações nas quais nenhum fator exterior ao desejo sexual importa: homens e homens, adultos e crianças, gordos e magros, chefes e empregados, irmãos e irmãs – e qualquer combinação possível que a imaginação de Moore seja capaz de criar.

Não há comedimento nem no roteiro nem no desenho da HQ. Ela não é erótica – os autores são bastante enfáticos neste ponto: ela é pornográfica. Essa característica é melhor entendida quando tomamos noção de que um dos objetivos imediatos de Lost Girls é eliminar a relação entre pornografia e vergonha. No entender de Alan Moore, a pornografia hoje é feita para nos sentirmos culpados ou envergonhados – logo ela, que remete a uma das atividades humanas mais prazerosas. Dirá ele, em entrevista ao site G1: “Pensamos que se pudéssemos produzir uma pornografia que fosse bela o suficiente e inteligente o suficiente e séria em sua aplicação então talvez fosse possível que pessoas civilizadas e dignas não se sentissem envergonhadas de ter uma obra pornográfica em suas casas”. É por isso que, a certa altura da história, um personagem se indaga: “Por que devemos somente nos sentir desconcertados quanto ao que causa prazer? Se fôssemos capazes de nos envergonhar pela miséria, o mundo seria plenamente mais agradável”.

Este é Alan Moore. Tentando, com Alice, Dorothy e Wendy, recusar nossas arbitrariedades morais. Quanto ao leitor, é válido perguntar: o quanto temos em nós daquela mulher que folheou Lost Girls e a devolveu ao seu lugar, envergonhada?

About these ads

3 Comentários so far
Deixe um comentário

Você também só folheou ou comprou?? rsrsrs, sou doido pra ler essa obra, mas o terceiro motivo do escândalo me atinge em cheio…

Comentário por nandodijesus

[...] Visto no O Lado B [...]

Pingback por Garotas Pedidas | Impulso HQ

[...] indicar o texto AS AVENTURAS SEXUAIS DAS GAROTAS PERDIDAS… E AS NOSSAS? no Blog Lado [...]

Pingback por GAROTAS PERDIDAS de ALAN MOORE – “Pornografia e heroínas cheias de charme e malevolência” |




Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

%d blogueiros gostam disto: