
FRANÇOIS: Acho que te amo.
CAROLE: Acha?
FRANÇOIS: Não. Tenho certeza.
CAROLE: O que você sabe? Diz isso porque nos damos bem na cama. Mas o amor não é isso. Se eu estivesse doente, ainda me amaria? E se meu cabelo caísse? Se eu perdesse os dentes? Ainda me amaria? E se eu enlouquecesse?

Ao abordar a relação amorosa, a visão de mundo de Philippe Garrel traz à tona apenas aqueles aspectos românticos no sentido mais tradicional do termo: o que fica é a beleza inefável do Amor. O espectador imerge no universo fantástico da lindeza específica do estar verdadeiramente apaixonado. Difícil conter os suspiros ao ser tragado por esse mundo que, em seu mais recente filme A fronteira da alvorada (2008), se configura poderosamente.
O fotógrafo François e a atriz Carole se apaixonam com toda a intensidade e mistério que essa ação pode exigir. O desenrolar dos acontecimentos, porém, fatalmente leva à dissolução do casal e à morte dela. O romance posterior de François com Eve, no entanto, é muito menos avassalador, muito mais superficial (o modo como a mise en scène explora a fascinação abismal da primeira mulher e a planície da segunda é quase inacreditável). É com esta que ele terá um filho e se casará. O fantasma de Carole, contudo, começa a assombrá-lo: é como se aquele Amor utópico do passado que não foi possível emergisse da consciência de François quando ele está prestes a entrar na “felicidade burguesa” – termo cunhado por um amigo dele que será testemunha do casamento.
A experiência estética dividida em dois proposta pelo longa é das melhores que tive até agora esse ano: a primeira parte (com Carole) nos leva a um mundo romântico à nouvelle vague. É como se os anos sessenta empreendessem uma “colonização estética” (Jameson) no presente (tanto que a mente do espectador se confunde quando vê um computador na mesa da recepção e quando percebe pelo túmulo de Carole que ela morreu em 2007!*). Já a segunda parte parece ter aquela aura assombrada do “primeiro cinema” clássico (mudo até). Fora a direção e a fotografia magistrais, devo fazer minhas as palavras de Luiz Carlos Oliveira Jr. sobre a montagem do filme: “A montagem de Yann Dedet (…) é das poucas que podem ainda ser sentidas, para usar a prodigiosa metáfora de Godard, como um ‘batimento do coração’, um instrumento emocional indispensável cuja função não é organizar (…) a matéria tão lírica quanto rudimentar da mise en scène, mas bombear vida no corpo do filme, respeitar a força do fragmento e, ao mesmo tempo, afirmar a unidade do ponto de vista sobre aquele mundo”.
Melhor que a crítica de Oliveira Jr, porém, é a de Paulo Santos Lima, que, se também é sensível, é historicista. Concordo plenamente com ele quando diz: “Philippe Garrel, cineasta que, ao lado de Godard, mais contundentemente vem falando do pós-68, ou seja, de um projeto que morreu e de um processo histórico que prossegue a todo vapor transformando as coisas, matando algumas e seguindo avante com tantas outras”. É uma conexão importantíssima para o filme (que dá prosseguimento, em todos os sentidos, ao projeto político-estético de Amantes constantes) a qual precisa ser explorada cuidadosa e profundamente – algo que não pretendo neste pequeno post.
* É uma sensação parecida com a que temos em À prova de morte, a “nostalgia-anos-70” de Tarantino, quando uma personagem usa um celular.
Li recentemente a introdução do livro Cultura, de Raymond Williams, e devo dizer que foi um dos textos que, esse ano, mais me empolgaram e propuseram insights novos. Já decidi que vou procurar mergulhar mais nas complexas análises materialistas da cultura que Williams empreendeu, mostrando assim uma das faces dos estudos culturais mais relevantes para se investigar a sociedade e acultura contemporâneas. Já deu pra perceber que vai se transformar num autor-chave pra mim – junto com Fredric Jameson e Terry Eagleton…
Aqui um texto bem interessante de Beatriz Sarlo sobre Williams.

O novo CD da banda sueca Love Is All (que já veio a Recife por vias da Invasão Sueca, no Festival No Ar Coquetel Molotov), está circulando pela internet. Como se pode deduzir pelo título similar ao do primeiro disco da banda (Nine Times That Same Song), todos os elementos bons que deram certo estão de volta: o mergulho sombrio no brilho retrô do Yeah Yeah Yeah da década de sessenta continua resultando em ótimas músicas de apelo camp. Quando, em algumas faixas, Josephine divide o vocal com uma voz masculina, mais um acerto!
Contudo, o que se mostrou uma inovação no primeiro CD (antes deste, a banda se chamava Girlfriendo e produzia um rock de garagem bem tradicional), se transformou numa fórmula segura – boa, sim, mas que parece ter amedrontado o grupo na hora de inovar. Pena.
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Foi um domingo particularmente nostálgico (e, admito, dias assim são raros pra mim). Reli as histórias de Grant Morrison na Liga da Justiça com a supresa e o encanto de quando as li pela primeira vez. E, por mais que agora eu consiga olhar criticamente essa revista, apontar aspectos que descordo e condeno, não posso simplesmente apagar (boas) memórias. Quando terminei de ler, deitei na cama e fiquei encarando o teto. Lembrando da ansiedade todo mês pela próxima edição, das intermináveis releituras, das elocubrações infantis, do desespero em saber se Batman conseguiria salvar o resto da Liga…
Não é todo mundo que lhe presenteia com algumas das melhores memórias da sua infância.

Sintomas de pré-loucura:
1. São 11:24 e você está no estágio. O detalhe é que terminou todo – TODO – trabalho que tinha que fazer às 9h30;
2. Você já visitou todos os sites / blog / fóruns que costuma visitar (e outros) e leu tudo de novo que tinha pra ler;
3. Não há ninguém interessante online no msn ou no gtalk;
4. Você não tem nenhum livro ou revista na mochila – e nem conseguiria ler, porque a sala é um pandemônio;
5. Seu estômago reclama por comida.
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Um desterrado em sua própria terra…
Triste.











