LadoB


A Fronteira da Alvorada
Março 29, 2009, 10:07 pm
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Ao abordar a relação amorosa, a visão de mundo de Philippe Garrel traz à tona apenas aqueles aspectos românticos no sentido mais tradicional do termo: o que fica é a beleza inefável do Amor. O espectador imerge no universo fantástico da lindeza específica do estar verdadeiramente apaixonado. Difícil conter os suspiros ao ser tragado por esse mundo que, em seu mais recente filme A fronteira da alvorada (2008), se configura poderosamente.

O fotógrafo François e a atriz Carole se apaixonam com toda a intensidade e mistério que essa ação pode exigir. O desenrolar dos acontecimentos, porém, fatalmente leva à dissolução do casal e à morte dela. O romance posterior de François com Eve, no entanto, é muito menos avassalador, muito mais superficial (o modo como a mise en scène explora a fascinação abismal da primeira mulher e a planície da segunda é quase inacreditável). É com esta que ele terá um filho e se casará. O fantasma de Carole, contudo, começa a assombrá-lo: é como se aquele Amor utópico do passado que não foi possível emergisse da consciência de François quando ele está prestes a entrar na “felicidade burguesa” – termo cunhado por um amigo dele que será testemunha do casamento.

A experiência estética dividida em dois proposta pelo longa é das melhores que tive até agora esse ano: a primeira parte (com Carole) nos leva a um mundo romântico à nouvelle vague. É como se os anos sessenta empreendessem uma “colonização estética” (Jameson) no presente (tanto que a mente do espectador se confunde quando vê um computador na mesa da recepção e quando percebe pelo túmulo de Carole que ela morreu em 2007!*). Já a segunda parte parece ter aquela aura assombrada do “primeiro cinema” clássico (mudo até). Fora a direção e a fotografia magistrais, devo fazer minhas as palavras de Luiz Carlos Oliveira Jr. sobre a montagem do filme: “A montagem de Yann Dedet (…) é das poucas que podem ainda ser sentidas, para usar a prodigiosa metáfora de Godard, como um ‘batimento do coração’, um instrumento emocional indispensável cuja função não é organizar (…) a matéria tão lírica quanto rudimentar da mise en scène, mas bombear vida no corpo do filme, respeitar a força do fragmento e, ao mesmo tempo, afirmar a unidade do ponto de vista sobre aquele mundo”.

Melhor que a crítica de Oliveira Jr, porém, é a de Paulo Santos Lima, que, se também é sensível, é historicista. Concordo plenamente com ele quando diz: “Philippe Garrel, cineasta que, ao lado de Godard, mais contundentemente vem falando do pós-68, ou seja, de um projeto que morreu e de um processo histórico que prossegue a todo vapor transformando as coisas, matando algumas e seguindo avante com tantas outras”. É uma conexão importantíssima para o filme (que dá prosseguimento, em todos os sentidos, ao projeto político-estético de Amantes constantes) a qual precisa ser explorada cuidadosa e profundamente – algo que não pretendo neste pequeno post.

* É uma sensação parecida com a que temos em À prova de morte, a “nostalgia-anos-70” de Tarantino, quando uma personagem usa um celular.


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