LadoB


A Professora de Piano
Fevereiro 2, 2009, 1:59 am
Arquivado em: Sem-categoria | Tags: ,

Tinha escrito esse texto ano passado, antes das férias. Lendo-o agora, vi que ainda preciso explicar  e argumentar um monte de coisas, mas como os filmes não estão muito frescos na memória, decidi  lançá-lo assim  mesmo e quem sabe gerar alguma discussão…

Quando vi Funny games (o de 1997), já tinha visto O sétimo continente. E por isso achei o título brasileiro, “Violência gratuita”, a maior bobagem do mundo. Para mim, a violência que ocorre ali é tudo, menos gratuita. Em O sétimo continente, uma típica família de classe média-alta decide suicidar-se porque percebe a falta de sentido de uma vida sustentada por valores que se concretizam em um cotidiano capitalista-burguês. Em Funny games, uma família do mesmo tipo (e Haneke não dá trégua na caracterização minuciosa) é, dessa vez, assassinada. Um elemento, digamos, “irreal” (a decisão da família pelo suicídio a partir de sua própria auto-percepção da condição de alienação – algo, considero, bastante improvável de ocorrer) foi substituído por outro (dois jovens, simplesmente, sem nenhum motivo aparente, assassinam, se divertindo inclusive, a outra família). Mas será que o assassinato aí é realmente gratuito, sem motivo?

Cada vez mais me convenço que não. E A professora de piano, de 2001, sem dúvida contribui. Haneke fez uma fita sobre um tema que muitos podem considerar “sujo” ou “degradante”: aquelas formas de sexualidade que normalmente são consideradas bizarras ou insanas e cuja forma que o senso-comum mais conhece é o masoquismo. O filme consegue concretizar de maneira delicada, sutil e, paradoxalmente, brutalmente violenta infinitas dimensões dessa temática.

Pode-se lembrar de Cronemberg, para quem tal temática é cara. Em seu primeiro longa, Stereo, a seguinte frase (não ipsis litteris) pode ser ouvida num tom “científico”: “a heterossexualidade é apenas um pequeno ponto na enorme rede da sexualidade humana”. Quem quiser comprovar pode checar alguns filmes do diretor, como Crash, cujos personagens nutrem desejo sexual por acidentes de carro. Mas a abordagem de Haneke é bem diferente.

A chave com a qual gosto de ler A professora de piano é o Romantismo (no sentido de movimento intelectual do século XIX). Há a fotografia escura e pouco colorida, privilegiando os tons marrons. Há a trilha sonora que dialoga, com o enredo, referências musicais românticas (Beethoven, Brahms, Liszt…). Há a mise-en-scène densa, a atmosfera pesada. E há a velha afirmação romântica de que o que é considerado loucura (aqui, aquela sexualidade “bizarra”) é apenas uma outra forma, diferente, de se relacionar com a vida. O Romantismo foi uma reação aos prometidos benefícios que a modernização iluminista nunca trouxe. E A professora de piano é um filme que mostra certo tipo de mal estar no mundo contemporâneo (e, claramente, O sétimo continente também). A sequência onde a personagem principal vai a um shopping, a uma loja que comercializa mercadorias eróticas, e a melancólica música erudita romântica de piano da cena anterior continua pode ser vista como uma (genial) expressão disso. Se em Crash, há as impressionantes, languidas e sensuais sequências onde os personagens concretizam formas de amor que fogem da normatividade, em A professora de piano há a aguda e amarga consciência de que não é possível concretizá-las verdadeiramente por causa do espaço psico-social.

Quando um dos membros da família é morto, a certa altura de Funny games, a televisão da sala continua ligada, mas com uma mancha de sangue na tela. Em A professora de piano também há planos assustadores onde a televisão figura, como aqueles onde a mãe da protagonista anda pelos corredores escuros do apartamento com a TV ligada. Não é preciso nem citar Cachê. Acho que se uma imagem fosse escolhida como um dos emblemas da filmografia de Haneke seria essa de Funny games.

Funny games


2 Comentários até o momento
Deixe um comentário

Antes de tudo é ótimo ver que você voltou pra valer! Gosto muito dos teus textos e esses últimos comprovam que tenho bom gosto. OK, não comentei nada logo que você postou, porque ainda não tinha assistido, e como você pensou em “gerar alguma discussão” eu preferi correr pra ver logo esse filme e matar o desejo que me consumia. Assim, ontem, para superar o dia de merda que eu estava tendo, sentei meu traseiro antes de dormir e colei meus olhos nessa coisa que o Häneke fez… Caramba, que coisa! Eu me espanto em como o cara consegue me atingir cada vez mais forte! Em como ele consegue atingir a sociedade e o próprio cinema, assim como os meios de massa, com tanta acidez e verdade.
Excelente a relação que você propôs com o cinema de Cronenberg. Fico imaginando André Bazin olhando pra eles e situando-os como prosseguidores daquele conceito de “Cinema de Crueldade” (Buñuel, Hitchcock, Dreyer, etc.). E por falar nesses amigos, foi impossível não rever “Psicose” nessa absurda relação materna apresentada pelo filme…
É verdade, nada é gratuito. Talvez faltem motivações, talvez a motivação seja justamente essa gratuidade, mas sempre, sempre haverá um preço a ser pago. Os atos humanos muitas vezes (talvez sempre) são inconsequentes, ilógicos, obscenos, e muito pouco os meios de comunicação têm feito para (ao menos) refletir essa condição. Nisso tudo, uma coisa dessas que o Häneke faz, ou seja, a verdadeira arte, ela é quem tem que pagar o preço…
(já tinha baixado “Os Amantes Constantes” por aqui – coincidência – vou correr pra ver e volto)

Comentário por nandodijesus

[...] na programação e a presença assustadora de Isabelle Huppert, a (ótima) protagonista do (ótimo) A professora de piano, como a presidente do júri desta edição (”Não estou preocupada em ser diplomática, não [...]

Pingback por horror « LadoB




Deixe um comentário
Linhas e parágrafos quebram automaticamente, endereços de email não serão mostrados, HTML permitido: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>