LadoB


Você se incomoda?
Julho 13, 2008, 3:33 pm
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Às vezes acontece de sentir saudades dos personagens dos quadrinhos que leio. E o engraçado é que isso se dá não quando termino de ler, mas ainda durante a leitura. Posso estar na metade ou quase no fim; se bate aquela sensação de saudade antecipada, dou uma pausa na leitura. Coloco a HQ de lado, apenas pra dar mais tempo ao meu desconhecimento do personagem em questão. Aconteceu na leitura de Mafalda e de Lost Girls. Persépolis é o caso mais recente. Agora mesmo a revista tá ali, em cima da minha escrivaninha, desde ontem. Já passei da metade da história e me apeguei tanto a Marji (a autora e protagonista), que não quero terminar logo a leitura. É um sentimento confuso, pois ao mesmo tempo eu não quero parar de ler. Na minha indecisão, acabo pondo o gibi de lado. Nem sempre consigo, é claro.

 

O relato da vida de Marjane Satrapi (a Marji) no Irã e na Europa é de uma sinceridade quase infantil, impossível de se ficar indiferente. Acompanhar suas descobertas, as maneiras como apreendia e lidava com a realidade da guerra em seu país, e posteriormente os rumos – des-rumos, talvez – que toma na Europa, me deram a sensação de estar mergulhando não apenas na alma daquela iraniana, mas em certas contradições sociais que de maneira alguma possuem fácil solução.

 

Quando ela, ainda criança, lendo sua história em quadrinhos predileta – chamada “O materialismo dialético” – conclui que a causa de todos os problemas da sociedade é a diferença entre as classes sociais, ela começa a se questionar sobre sua realidade imediata. “Como podíamos manter uma empregada em casa?”. “Por que havia crianças que precisavam limpar vidros de carros ou tecer tapetes para sobreviver?”. “Por que meu pai possuía um Cadillac enquanto a maioria das minhas amigas andava a pé?”. Os questionamentos são tipicamente infantis, mas não é esse o ponto.

 

O que me incomodou foi pensar que, hoje, talvez nossa capacidade de estranhar o mundo tenha enfraquecido – aquela sensação de que a realidade poderia ser melhor, se incomodar com isso, e então tentar transformá-la. Marji sentiu isso no micro-universo que a rodeava quando criança; arrisco dizer que o sentimento jamais a abandonou. E penso que deveríamos cultivá-lo. Buscar, no nosso incômodo com a realidade – mas quem se incomoda? – meios de superá-la. Talvez esse seja um dos motivos que me levaram a desejar a vida acadêmica – e com isso não quero dizer que não haja outros caminhos, melhores ou piores. Enxergo na academia o potencial de transformar esse estranhamento do mundo em ferramentas para mudá-lo. Porque ele me incomoda. E, assim como Marji, recém-chegada na Europa, se incomodou com sua amiga que “falava de futilidades” enquanto as pessoas morriam no Irã, eu me perturbo quando vejo a academia se consumar nesses “debates masturbatórios” de que Bobbio fala (ver post abaixo). Afinal, há uma realidade aí fora – alias, corrijo-me: estamos na realidade – e simplesmente não me conformo quando os acadêmicos voltam o olhar apenas para si mesmos.

 

Tenho medo de parecer determinista. “Analisar o pensamento de Fulano é necessariamente uma masturbação intelectual”. Não é isso. O estudo do pensamento teórico é uma das chaves da práxis acadêmica. É a maneira como esse estudo se dá que a meu ver precisa ser reformulada. Terry Eagleton, na nota introdutória do livro Depois da Teoria, afirma que a teoria cultural, no atual estágio do seu desenvolvimento, não dá “atenção a questões suficientemente inquiridoras e penetrantes que atendam às demandas de nossa situação política”. E Bobbio, falando do marxismo (tema do seu artigo), questiona-se se, em vez de utilizar Marx para disputas obscuras e sem sentido (como determinar se ele é funcionalista ou estruturalista), “não seria mais sábio… utilizar a obra de Marx para aquilo que é ainda utilizável, com o objetivo de tirar proveito de instrumentos conceituais adequados à análise da sociedade contemporânea?”.

 

Ambas as críticas são especificas, mas creio que podem ser generalizadas de forma saudável, indicando caminhos que a academia deveria tentar seguir na sociedade. O cultivo do estranhamento da realidade contemporânea é, a meu ver, um bom ponto de partida. Um estranhamento que identifico com a trajetória de Marji, que aliás me espera em cima da escrivaninha. É hora de me incomodar.


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È sempre doloroso “matar” personagens…O desligamento torna-se penoso…contudo, podemos sempre ir ao canto e espia-los como a quem espia atenciosamente uma nuvem dourada, ao bater a saudade. E que venham sempre outros, porque é do novo que se tem a corroboração da qualidade.

Quanto à quietude mórbida, uma dica: me belisco toda manhã com o olhar preso ao sol, queimando minhas retinas – Ai! – é a dor do mundo.

Abraço
Blog Legal.

Comentário por JM




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