Arquivado em: Sem-categoria | Tags: Academia, Marxismo, Norberto Bobbio, Práxis
“Pois bem. O relacionamento entre teoria e prática é muito mais complexo do que aquilo em que sempre tinha acreditado o puro racionalista, que afirma que uma certa prática pode ser deduzida de uma certa teoria, ficando talvez escandalizado se lhe dissesse que a maior parte das teorias são, em geral, racionalizações póstumas de práticas já passadas ou que se gostaria de concluir”. Quem fala é Norberto Bobbio no artigo Existe uma doutrina marxista do estado?. A pergunta-título é o mote para o desenvolvimento de uma crítica a várias atitudes acadêmicas da época (década de 70, mais ou menos). “Marx era um estruturalista ou um historicista?” “Você viu aquela frase de A ideologia alemã? Ela sem dúvida definirá os rumos da discussão”… “Não, pelo contrário, você a interpretou errado”. Muitos estudiosos marxistas da política – uma “área” cuja importância direta para o social não pode ser negada – encaminhavam suas pesquisas condicionados por um pensamento “masturbatório”. Superada – talvez – essa contenda específica, o artigo de Bobbio ainda consegue alfinetar os leitores de hoje: a situação (e aí o leitor entende as palavras transcritas abrindo o texto), no que diz respeito à academia em geral, mudou?
Me preocupam os caminhos dessa instituição criada na Idade Média. Universidades pipocam no país. Isso significa maior geração de mão-de-obra (mais) qualificada. Ótimo. Mas os milhares de cursos de onde saem, enfileirados, engravatados-com-diploma-atrás-de-emprego têm, também, algo chamado “parte teórica”. Não vou falar do que não tenho certeza: que nas “universidades pagas” essa tal “parte” só é cumprida por obrigação curricular e olhe lá. Nas universidades federais, por outro lado (e aqui posso falar um pouco), há cursos que quase que se resumem à teoria. Não se assuste o leitor pensando que tal “desequilíbrio” é o único problema. A pesquisa teórica, de importância decisiva independente de que curso se esteja falando, parece-me, em grande parte, determinada por aquela atitude “masturbatória” com a qual Bobbio se preocupa. Às vezes penso que muitos “pesquisadores” confundem seu trabalho com jardinagem: vamos nos preocupar em deixar as flores bem bonitas, para algumas pessoas, apenas, olharem. É sempre bom ressaltar que há, claro, exceções. Mas o fato é que o velho – velhíssimo – problema “teoria e prática” precisa de uma solução urgentemente. Os debates aqui no blog estão abertos.
Os tiques marxistas denunciados por Bobbio no artigo em questão parecem, sem dúvida, que se esmaeceram. Claro que sempre encontramos um ou outro “Quixote” nos departamentos de humanas, mas os tiques de hoje – tão “obstáculos” quanto esses marxistas – são outros. Pena. Tenho sempre mais simpatia por esses Quixotes. Aliás, com relação aos livros de teoria cultural por onde tento obter ferramentas para desvendar o hoje, sempre confiei mais nos marxistas. Bobbio teria me repreendido… As alfinetadas de Existe uma doutrina marxista do estado? são mais que bem-vindas. Se confia-se em marxistas, dizem elas, deve-se fazê-lo, no mínimo, com sensatez. São alfinetadas das quais qualquer um que queira começar a pesquisar não deve se defender. E ah: o livro que esse artigo de Bobbio abre (O marxismo e o estado, de Bobbio et all., Graal) é um início maravilhoso.
Fragmento da discussão realizada em 05/07/2008
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