Arquivado em: Sem-categoria | Tags: Apatia, Atos simbólicos, Estética, Isabella Nardoni, Jesús Martin-Barbero, Mobilização, Televisão, Walter Benjamin
O caso da morte de Isabella Nardoni, de 5 anos, foi o último grande sucesso de bilheteria da TV. As audiências chegaram a níveis estratosféricos. Dizer que as pessoas gostam de ver atrocidades é raso. O fato em questão foi, sem dúvida, impactante e cruel, mas o mundo sem dúvida tem – por mais doloroso que seja dize-lo – fatos muito mais atrozes para a mídia explorar, se fosse esse o caso. Não, o caso Isabella não deu audiência por causa apenas de suas circunstâncias atrozes. Mas principalmente porque o caso veio dentro de um pacote de presente reluzente, com um laço cor-de-rosa, diretamente para a mídia. Ele tem todos os elementos de uma narrativa policial/de suspense/dramática/de tribunal. Um roteirista que faz filmes estilo “Super-cine” não podia ter imaginado melhor. Há os pais assassinos que angustiantemente podem não ser presos no final, para a indignação geral; há a menina linda com cara de anjo que foi morta na flor da inocência infantil (há – o principal dentro do pacote – imagens dessa menina, que a TV não cansava de mostrar em câmera lenta, cujo efeito já foi salientado por Benjamin*); há a justiça que deve ser cumprida, cujos heróis de toga preta agem admiravelmente. Há duração: matéria-prima de semanas para os programas jornalísticos com audiência certa. Há, sobretudo, realidade. Aqueles fatos – sua vantagem contra qualquer roteiro cinematográfico brilhante – estavam acontecendo de verdade.
O que estou querendo dizer é que as pessoas são engajadas afetiva/sensivelmente não por “atrocidades” exóticas, mas por certas formas que, como Martin-Barbero** ensinou, remetem a uma matriz cultural que se pode dizer popular. Essas formas podem ser as pistas para a constituição de uma “estética popular” (lembrando que “popular” agora está intimamente relacionado ao midiático, ao massivo, e não a imagens “folclóricas” e telúricas que geralmente vêm à mente): a narratividade melodramática (com seus personagens cruéis e heróicos, com seus dramas familiares), o gosto pelo realismo e pela durabilidade seqüencial (a arte mais imbricada o possível com a vida cotidiana). A estética do meio televisão privilegia sobremaneira essa estética popular. Por exemplo: as coberturas de longa duração, moldadas pelas falas repetitivas do jornalista e pontuadas por pequenos fatos emocionantes, como a ida do casal assassino (protegido por policiais) à delegacia para depor, a divulgação de um habeas corpus, a descoberta de novas pistas… A Record e a Band se utilizaram brilhantemente dessas estratégias formais, ao contrário da Globo (que, como grande parte do seu público, é tradicionalista até dizer basta***) e do SBT (que não cansa de tentar imitar a globo).
O que mais chama atenção nessa história toda, é como atos altamente simbólicos como essas coberturas conseguiram mobilizar as pessoas de tal modo que, na saída do casal para depor ou para ser preso, por exemplo, havia milhares de pessoas, uma verdadeira “turba” anônima (para remeter a imagem da queda da Bastilha) gritando sinistramente: “assassinos! assassinos!” Há coisas que conseguem reunir pessoas diferentes; há coisas que as organizam, as mobilizam… no caso Isabela, essas pessoas apenas mostraram uma força, uma vontade e uma capacidade de se mobilizar incríveis. Depois de o caso esquecido, as pessoas voltaram às suas casas, à sua vida diária, ao status quo. A mídia – vamos ser um pouco caricatos – não teria, pra início de conversa, nem explorado o assunto se não houvesse essa condição final. Mas tudo isso, de um jeito ou de outro, pode mostrar caminhos verdadeiros contra a apatia que têm tudo a ver com a mídia, sua estética e sua política.
* Em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”
** Em “Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia”
*** Quando o casal estava prestes a ser levado à delegacia preso, todas emissoras estavam se desdobrando à procura de brechas na programação normal para veicular o evento. A novela das 6h da Globo, contudo, continuava impassível sendo transmitida…
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Confesso que não estou acompanhando a história. E não me taxem de frio por isso. Na verdade, acho que o conhecimento (parcial, claro) de como funcionam os mecanismos da mídia desenvolveu em mim uma certa insensibilidade para todo o alarde.
Mas enfim. Eu só queria destacar como a sociedade (e a mídia, conseqüentemente) “reifica” (e tenho consciência de que o termo pode estar sendo usado aqui de forma não tanto convencional) de uma maneira excepcional até os acontecimentos mais “comoventes”. Eis aí todo o drama exposto e classificado como “caso Isabella”. Tenho a impressão de que esse primeiro substantivo contribui para transformar o fato em “algo” exterior a nós mesmos. Como uma novela, um romance, um filme. É uma história para ser acompanhada, para se emocionar, xingar os vilões, chorar pelos mocinhos. Como André bem disse, a história de Isabella propicia tudo isso. Eu colocaria essa “reificação” entre os ingredientes que contribuem para a forma alienante com que vem sendo tratada essa história, afastando-nos de certa maneira da realidade social a qual se refere.
Mas isso não é uma característica da cobertura atual sobre a história de Isabella. Os exemplos anteriores abundam. Alguém se lembra do “Caso do mensalão”, “Caso do vôo da TAM”, “Caso Renan” (ou a dramatização em “Renangate”)? Ou o “caso da Escola Base”, com o qual o “Caso Isabella” é constantemente comparado? São tantos “casos” classificados pela mídia que é difícil pensar em todos. Mas veja algo em comum: da mesma forma que apareceram, viraram “destaque nacional”, ganharam a substantivação de “caso”, eles somem. A reificação, a transformação em “coisas”, em histórias para serem acompanhadas de fora, com todos aqueles ingredientes que André mencionou e outros (dependendo do “caso”), atinge um ponto tal que a reflexão crítica fica impedida. O fenômeno vira uma coisa da qual devem ser extraídos todos os elementos possíveis – desde o “factualismo” inerente ao jornalismo diário, passando pela adjetivação de “crise”, a elementos dramáticos e sensacionalistas.
Não sei se estou conseguindo ser claro, mas o que quero dizer é que nosso engajamento afetivo e sensitivo nesses “casos” se dá de uma tal forma que passamos a vê-los menos como um fenômeno para ser apreendido criticamente, e sim como uma história para ser contada e acompanhada. Se essa “reificação alienante” é menos um aspecto da cobertura midiática atual, e mais uma característica intrínseca à comunicação institucionalizada de hoje, está além da minha capacidade de julgamento, embora tenda a acreditar na segunda opção.
Posso dar a impressão de estar defendendo uma espécie de “jornalismo didático”, quase acadêmico, cientifico. Talvez. Apenas tenho a impressão de que o jornalismo como está caminha para uma mediocridade cada vez maior. Mas se o jornalismo (se a comunicação, de uma forma geral) estiver mesmo assim, creio que as explicações e as possíveis saídas desse problema devem ser buscadas nos processos sociais dos quais ele é apenas uma parte. O processo dialético entre a sociedade e a comunicação (infra e superestrutura) precisaria ser compreendido em toda a sua complexidade. É a velha história. Só há mercadoria porque há quem compre. E só há comprador porque há mercadoria. Tentar apreender a comunicação fora desses processos sociais seria persistir na alienação.
Talvez não demore para o próximo “grande caso” surgir. E, no auge do meu otimismo, não enxergo – agora – um horizonte em que reagiremos de maneira diferente.
aristeu
Comentário por oladob Maio 11, 2008 @ 2:44 pm