Passei uma tarde com os sentidos imersos no ópio e no absinto de Lost Girls, a narrativa onírica, decadentista e erótica de Alan Moore, ilustrada lindamente por Melinda Gebbie. Aí decidi postar quatro dos milhares de trechos e diálogos legais que podem ser encontrados como tesouros pelas páginas (não se preocupem, não haverá spoilers, podem ler =P):
* Mimese aristotélica X Idealismo platônico:
- De fato, como perito em tal literatura, posso dizer que nas suas nobres mãos, a ficção tornou-se o próprio espelho da realidade… onde memoráveis personagens idealizadas refletem nossas verdadeiras personalidades.
- Humm, estou lisonjeada Monsieur Rougeur… embora não aprove sua concepção de ficção. Eu prefiro a concepção de Platão… o ideal é a questão; o mundo além do espelho da ficção, esse é o mundo real… e somos apenas a mais tênue das reflexões que empalidece sob o vidro.
* Sobre a aristocracia:
- Hahaha… Oh, você ficaria surpresa.
- Hahaha! Sim… e você também.
- Minha cara, eu nasci numa classe que não trabalha, toma o dinheiro dos que trabalham e ainda não foi morta a pedradas. Depois disso, a vida guarda algumas surpresas, acredite-me.
* Sobre o Art Nouveau (uma fala que pode se estender ao próprio estilo formal da graphic novel, embora eu não a ache despropositada):
- …e, quer dizer, é lógico, que é terrivelmente decadente, chafurdando nos sentidos dessa forma, só prazer e nenhum propósito. Tudo não passa de decoração e açúcar em pó… efeminado, é o que isso é. Efeminado.
* Descrição da experiência estética (as personagens vão a uma ópera):
Era como se eu já conhecesse aquilo e, no entanto, eu nunca ouvira uma música tão curiosa, despertando medo e desejo ao mesmo tempo. Um formigamento desceu pelo meu corpo para assentar-te entre minhas pernas, que, devo confessar, apertei juntas, oculta em prazer (…) A platéia estava hipnotizada. Aquilo era intoxicante, não muito diferente dos instantes mesclados de ópio onde nossa memória e nossa expectativa, todo nosso passado e futuro são gloriosamente desordenados no borrão luminescente do agora, frases repetidas na música, sinistras como instantes renovados marcados feito jóias no tempo.
2 Comentários até o momento
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É verdade. Essas são apenas “algumas” das melhares de frases estupendas que podem ser encontradas em suas páginas.
Eu só não vejo Lost Girls como uma obra erótica. Na verdade, pornográfica a definiria melhor. E é bastante condizente com a própria obra. É quase impossível não ouvir Alan Moore gritar, em cada página: “Vê? Tudo isso a Sociedade aprisiona dentro de você, faz você se sentir envergonhado e culpado por simplesmente pensar nisso”.
Aristeu
Comentário por oladob Fevereiro 6, 2008 @ 1:37 pm””"
Comentário por ''"" Setembro 11, 2009 @ 2:15 am