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“O bom selvagem das ruas”, por Thiago Pininga
Janeiro 23, 2008, 2:38 am
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“O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém” (Jean-Jacques Rousseau, Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens)

 

O documentário À Margem da Imagem (2003, de Evaldo Mocarzel) tem como tema a questão dos moradores de rua, ou, como estes mesmos se denominam, “povo da rua”. Mostrando o cotidiano de suas vidas, o filme me fez lembrar a idéia de “bom selvagem” de Rousseau, daí a citação acima. Fala o pensador sobre a origem do pensamento humano quando este ainda estava fora da cultura, ou seja, não estava corrompido pela sociedade. Para Rousseau “o homem nasce bom, é a sociedade que o corrompe”.

 

Fica claro no filme que a idéia de propriedade é o principal problema dessas pessoas e que por isso mesmo se chamam “povo da rua”. Em um depoimento, um deles fala que a rua é pública e isso significava que ela é de todos e também dele. Com esse argumento, explica a construção de seu casebre abaixo do viaduto. Faço então uma reflexão: será que todos nós, ao vermos nossa cidade como algo público, em conseqüência disso nos tornamos mais cidadãos? Julgando os moradores de rua como não-cidadãos estaríamos cometendo uma injustiça e falando uma inverdade, uma vez que eles vivem da coisa pública por impossibilidade de possuir uma casa própria e trabalho com carteira assinada. Para mim, isso vale mais que um documento de identidade, símbolo de cidadania, pois a identidade do homem da rua está mesclada com sua classe social e com o ambiente em que vive. O homem da rua tem cidadania efetiva enquanto outras pessoas, dizendo serem civilizadas, só possuem um pedaço de papel.

 

Se para Rousseau o começo da propriedade privada resultou em desigualdades e o estado natural do homem é (ou foi) o estágio mais feliz da humanidade onde cada um podia exercer sua total liberdade, então, a meu ver, e depois de ver o filme, ficamos com a impressão de estarmos vendo ali, em plena contemporaneidade, um exemplo do “bom selvagem”.

 

Entretanto ele não faz parte da harmônica natureza das florestas, mas das grandes metrópoles urbanas. Se Rousseau via que o primitivo necessitou desenvolver habilidades de sobrevivência naquele ambiente, o filme mostra o homem da rua fazendo a mesma coisa. Numa analogia, ao invés do homem tratado por Rousseau enfrentar um lobo ou urso, o homem da rua enfrenta doenças como AIDS, os órgãos de repressão do estado, alcoolismo e depressão. Ao invés de florestas naturais, o nosso homem enfrenta a selva de pedra.

 

Tão forte é a idéia de “bom selvagem” que podemos perceber no filme a moralidade. Nenhum deles cometeu ou pensou em cometer um roubo ou furto em conseqüência de uma vida difícil para sobreviver. Isso ainda assim não justifica uma ação antiética. A consciência política é bastante presente em cada um deles. Outro entrevistado chega a afirmar que, se o voto no Brasil deixasse de ser obrigatório, iriam muito mais pessoas às urnas numa eleição. Outra coisa com que concordo, pois votaria quem tem consciência política ou a adquirisse. Além disso, entra na discussão a idéia de liberdade. 

 

Vimos que, ao menos no que se refere a deveres, o “povo da rua” pode ser chamado de povo cidadão, pois tem apreço pela coisa pública. Porém, seus direitos não são cumpridos. Por exemplo: saúde, educação, moradia, lazer, alimentação, transporte etc. O paradoxo de nossa sociedade atual é que quem tem acesso a todos esses benefícios e direitos são exatamente aqueles que não cumprem os deveres.


6 Comentários até o momento
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Eita q o blog começou bem, já recebendo texto de Thiago =]

Não entendo muito de teoria política clássica, mas esse Rousseau escreve bem viu? Só esse trechinho já faz vc ficar impressionado O.o

Ainda não vi o filme, mas adoro quando um documentário desconstrói totalmente a idéia senso-comum que se tem sobre algo. Esse, pelo texto, deve fazer exatamente isso. Já está na minha lista de filmes a assistir ^^

Gostei – e concordo com – especificamente da parte em que você diz: “a identidade do homem da rua está mesclada com sua classe social e com o ambiente em que vive” e quando vc falou q o filme mostra a moralidade dessas pessoas.

Às vezes acho que, no meio de tanta coisa à margem, a moralidade pode ser facilmente achada.

André.

Comentário por oladob

Mas em que medida um homem de rua poderia exercer uma “total liberdade”, como o homem no estado natural idealizado por Rousseau, se a ele faltam condições de ser autonomo?

Como ele poderia ser cidadão desvinculado da rede que configura a cidadania?

Aristeu.

Comentário por oladob

lhe falta autonomia quando pensamos ele dentro da sociedade…mas o homem no estado de natureza não pertence a sociedade alguma, por isso liberto…mas se pensarmos em autonomia no sentido de estar fora dessa sociedade/cultura? lembrando que o homem natural tbm está preso a algo, a natureza “natural/biologica/fisica” portanto nao tem autonomia sobre ela, necessita defende-se, tal e qual o homem da rua defedendo-se das pedradas quanto estao dormindo e das crueldades quando acordados. tudo isso está presentes na vida cotidiana deles…agora quanto a cidadania foi algo de poetico mesmo, como pode ser cidadao se está fora da sociedade??? talvez me refira ao estado primitivo desse termo, onde poucas leis faziam muita justiça. nosso tempo, ao inverso, muita lei e pouca justiça, coisa que como rousseau disse”a sociedade corrompe o homem”e eu acrescento que quanto mais complexa, mais corrompe…logo, quanto mais complexa a ideia e efetividade de cidadania, mais nos afastamos dela…

Comentário por Thiago

vejam vcs q as leis de quem mora na rua sao extremamente simples e estao dentro de suas (dos homens da rua) cabeças. muitos deles sao ate analfabetos e as regras para quem vive lá são do horizonte pratico e nao ideologico…nenhum pensa em passar na frente do outro simplismente pq ele se ve no mesmo estado do companheiro de rua, a subjetividade dá lugar ao grupo como um todo…ninguem lá tem o luxo de disser “eu” pq essa ideia remete a propriedade, e como novamente interpretando rousseau, da propriedade surge a desigualdade, mas essa não é somente terreno/cercado, refere-se a todas outras, inclusive o “eu”…

Comentário por Thiago

Ótimo post. Pena não ter visto o filme. Eu não acredito que as pessoas sejam melhores em estágios menos avançados no que diz respeito ao setor político-econômico. Não esqueça que Rousseau falava como se as pessoas não tivessem ”despertado” ainda os males, eram preguiçosas, etc. Mas penso que quanto mais ligadas a política e a economia, maior é a possibilidade de ficarem alucinadas com a idéia de ”poder”. Saudações!

Comentário por Angustiada Consciência

[...] Outro bom texto no blog O lado B. [...]

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